Após alguma hesitação, resolvi deixar meu blog somente em http://alvaroaugusto.blogspot.com . O crosspost automático, que capturava automaticamente um post do Blogger e o colocava aqui no Multiply, parou de funcionar eficientemente após o lançamento da nova versão do Blogger, pois os caracteres especiais não são bem interpretados. Assim, meu blog passa a ser atualizado somente em http://alvaroaugusto.blogspot.com .
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Alvaro Augusto
Aviso aos meus quatro leitores: este blog foi transformado em um espelho da versão original, e mais rápida, disponível em http://alvaroaugusto.blogspot.com. As atualizações continuarão aparecendo aqui, ao menos enquanto o pessoal do Multiply permitir o cross-post automático. Além disso, o layout do Blogger é mais agradável e não exige cadastro para deixar comentários.
O sonho de se tornar milionário, acalentado por tantos no Brasil e em outros países, foi recentemente renovado com o sorteio do prêmio da Mega Sena, acumulado em quase R$ 53 milhões. O concurso recebeu mais de 70 milhões de apostas e arrecadou R$ 111,6 milhões, de acordo com a Caixa Econômica Federal. O raciocínio comum parece ser o de que o custo de uma aposta (R$ 1,50) é muito pequeno frente ao prêmio acumulado, e, logo, o racional seria apostar. Estará correto esse raciocínio? De acordo com os economistas, uma aposta em um jogo de loteria é justa quando o Valor Presente Líquido (VPL) do jogo é maior ou igual a zero. O ganho esperado pode ser estimado como prob(G) x PE, onde prob(G) é a probabilidade de ganho e PL é o prêmio líquido. Para obter o VPL, basta subtrair o custo da aposta: VPL = prob(G) x PL – Custo. No modelo de Mega Sena adotado no Brasil, o jogador deve escolher 6 números dentre um total de 60. A quantidade total de combinações possíveis é 50.063.860, e, assim, a probabilidade de ganho pode ser escrita como 1/50.063.860. Logo, podemos escrever: VPL = (1/50.063.860) x PL – 1,50 = 0. Fazendo as contas, vem que PL = R$ 75.095.790. Assim, uma aposta na Mega Sena só será justa se o prêmio esperado for superior a R$ 75 milhões. Sabendo que o maior prêmio até hoje foi de R$ 64.905.517 (pago em 10/10/1999), concluímos rapidamente que a aposta jamais foi justa. Não adianta aumentar a quantidade de números apostados, na tentativa de aumentar a probabilidade de sucesso, pois o custo dos jogos é calculado de tal forma que a quantidade prob(G) x custo permanece sempre constante (ver http://www.caixa.gov.br/loterias/loterias/megasena/probabilidades.asp). Da mesma forma, também não adianta apostar por meio de bolões. Digamos, por exemplo, que 10 pessoas se reúnam e apostem em 10 números. Nesse caso, o custo total da aposta será de R$ 315 e a probabilidade de ganho será de uma em 238.399. O VPL será VPL = (1/238.399) x PL – 315 = 0, resultando novamente em PL = R$ 75.095.790, prêmio este que deverá ser repartido entre os ganhadores. E o que acontecerá quando, devido ao aumento progressivo do número de apostas, o prêmio acumulado começar a se aproximar de R$ 75 milhões? Ora, a CEF aumentará o custo da aposta, pois a finalidade aparente é manter o custo sempre superior ao prêmio esperado máximo. O raciocínio acima exclui o custo do arrependimento. Imagine que 10 colegas seus tenham se reunido, apostado em um bolão da Mega Sena, e conquistado o prêmio acumulado. Você foi convidado a participar, mas, por alguma razão, decidiu ficar de fora. Qual o custo do arrependimento? Bem, você descobrirá na segunda-feira, quando apenas você aparecer para trabalhar! Podemos então aventar a hipótese de que a aposta em um bolão corresponde ao pagamento de um seguro para proteção contra a situação indesejada de se tornar o único membro voluntariamente excluído de mais um clube de ganhadores da Mega Sena (ou de qualquer outra loteria).
O ano de 2006 acabou com uma boa notícia: fui convidado para ser o paraninfo dos formandos em Engenharia Elétrica, ênfase Eletrotécnica, da UTFPR. Já é a terceira vez que os alunos me concedem essa honra, o que significa que devo estar fazendo alguma coisa certa. Agora é só tomar cuidado na preparação do discurso.
Depois de alguns dias de merecidas férias, estou de volta à blogosfera. Começamos o ano com Chávez fazendo piada de todos nós e continuamos esperando ansiosamente pela divulgação do Plano de Aceleração do Crescimento - PAC, a ocorrer na próxima segunda-feira, dia 22, quando Lula voltar de suas férias. Vamos ver no que dá.
Eis que se aproxima mais uma transição entre dois estados arbitrariamente definidos pela humanidade. Os judeus já comemoraram, os chineses ainda comemorarão, mas para grande parte dos ocidentais, será hoje. Que nossas moléculas continuem unidas em 2007, formando esses macroagregados corpóreos e produzindo essa sutil oscilação elétrica que insiste em desafiar a segunda lei da termodinâmica! Que o governo desista dessa infeliz idéia de se tornar sócio majoritário de todos os brasileiros e que todos nós possamos, algum dia, comprovar na prática a realidade da utilidade marginal decrescente.
Feliz 2007!
A execução de Hussein traz à memória uma cena de “Coração Valente”, dirigido e estrelado por Mell Gibson em 1995. No filme, o escocês William Wallace tem a esposa barbaramente degolada pelo xerife local, após ter agredido um soldado inglês que tentara violentá-la. Wallace rapidamente prepara um contra-ataque, reunindo alguns conterrâneos sedentos de vingança e cansados da opressão inglesa na Escócia. Após invadir a propriedade do xerife, Wallace o captura, encosta-o a um poste e o degola. E é só isso. Wallace, em uma mistura de exaustão, fúria e decepção, permanece olhando, como quem espera que todos aqueles anos de tensão e ódio acumulado escoem junto com o sangue.
Contra a pena de morte sempre há argumentos humanitários, mas esse não parece ser o caso de Hussein, contra quem pesavam acusações muito sérias e irrefutáveis. Mesmo assim, existiam pelo menos duas razões contra a execução dele. A primeira delas é o risco de transformá-lo em mártir.
Em outros tempos e em outras civilizações, um ex-ditador ou guerreiro jamais teria se deixado capturar com vida. O romano Marco Antônio, acusado de traição pelo compatriota Otávio Augusto, tirou a própria vida no fio da espada. Muitos anos antes, o cartaginês Aníbal preferiu ingerir veneno a se deixar capturar pelos romanos. Da mesma forma, nenhum bom samurai hesitaria em cometer harakiri muito antes de ser ameaçado com a pena de morte. Mesmo Hitler, com quem Hussein frequentemente é comparado, agiu de forma mais honrada.
Hussein, por outro lado, parecia desejar a execução, e os iraquianos lhe deram justamente aquilo que ele queria. Morrendo como mártir, colocando-se na condição de vítima e segurando o Corão até pouco antes do instante final, ele deve ter apostado no fato de que sempre existe gente louca o suficiente para seguir um maníaco que mostrou ser capaz de qualquer método de governo.
A segunda razão contra a execução é que, como descobriu o William Wallace do filme, a sede de vingança não pode ser aplacada durante os poucos segundos em que um corpo se debate na forca, agoniza na cadeira elétrica ou em qualquer outro aparelho inventado para tirar vidas. Os parentes das 80 pessoas mortas hoje, depois da execução de Hussein, talvez tenham uma medida mais exata da inutilidade da vingança.
A verdadeira vingança do povo iraquiano teria sido deixar Hussein viver, perpetuamente trancado em uma prisão de segurança máxima, e mostrar que é possível construir um país livre e próspero sem ele. Mas isso é muito difícil. A execução na forca, por outro lado, só exige alguns metros de corda, um cadafalso e dois homens mascarados.
A crise pela qual vem passando o setor brasileiro de aviação civil me lembrou de uma viagem a Quito, capital do Equador, para apresentar um trabalho em um congresso internacional da CIER. Era o ano de 1998, quando o Projeto RE-SEB era jovem, o racionamento de energia estava ainda no futuro e o termo “controlador de vôo” não havia sido incorporado ao vocabulário do brasileiro médio.
O trabalho em questão era “Mudanças Estruturais no Setor Elétrico: Formação e Regulação de Preços”, escrito em conjunto com Paulo Born (que era o primeiro autor, mas, com a gentileza habitual, cedeu-me a oportunidade de fazer a apresentação). Na época, Paulo Born, hoje diretor da Light, estava na ANEEL, cedido pela Copel, e eu estava na Copel. Outro colega da Copel, Renê Bettega (hoje na CPFL), também iria apresentar um trabalho sobre o MRE, então uma novidade no setor. Embarcamos juntos e aproveitei para fazer um esforço financeiro adicional e levar a Sandra, minha esposa.
Era minha primeira viagem de longa distância dentro da América Latina e eu esperava ingenuamente embarcar em um MD-11, os aviões então usados pela VASP em viagens internacionais. Qual não foi minha surpresa ao ver um singelo Boeing 727 taxiando na pista de Guarulhos! Pelo que me lembro, o percurso era Curitiba-São Paulo-Brasília-Manaus-Quito, tudo a bordo de uma lata de sardinhas! Apesar do aperto, a viagem de ida foi tranqüila, com direito a uma vista aérea diurna da selva amazônica, sempre impressionante.
O aeroporto de Quito tem aquele jeitão de rodoviária de cidade pequena, mas não é muito pior do que vários aeroportos de algumas capitais brasileiras, com a diferença dos aviões militares misturados aos aviões civis, que conferem aquele toque de filme de Indiana Jones. O táxi que pegamos para o hotel não tinha taxímetro e o preço foi previamente combinado: cinco dólares. Em um época em que um táxi entre o centro de Curitiba e o aeroporto Afonso Pena não saía por menos de trinta reais, cinco dólares (pouco menos de R$ 6,50, a preços da época) pareciam pouca coisa. Mas a formação de preços no Equador guardava ainda outras surpresas.
Logo na primeira manhã em Quito, ficamos sabendo que, como já esperado, o café da manhã do hotel não era no estilo brasileiro “coma tudo que puder”. Não havia, por exemplo, presunto e queijo. Perguntamos ao garçom por esses itens e ele nos informou que eles seriam cobrados à parte. “Quanto é?” – perguntamos. A resposta: “cinco dólares!” Tudo bem, cinco dólares por uma passagem de táxi é pouco, mas por duas fatias de queijo e duas de presunto, já é demais! Mas o Equador atravessava um período de hiperinflação e, com os preços já informalmente dolarizados (especialmente para turistas), as referências de valores flutuavam bastante.
Chegando ao hotel do congresso, um imprevisto: o secretário brasileiro não havia conseguido chegar a tempo e, por razões que sempre me pareceram um pouco obscuras e tinham a ver com minha reduzida compreensão do espanhol equatoriano, fui escalado para a função. O secretário brasileiro tinha a função de resumir as palestras dos brasileiros, acompanhado de um secretário de língua espanhola. Como o secretário brasileiro nunca apareceu, acabei investido dessa nobre função durante todo o congresso. Em resumo, tive que assistir a todas as palestras brasileiras, até mesmo as que não eram da minha área, e, por uma questão de elegância, também assisti a todas as palestras em espanhol. Não conheci quase nada de Quito, a não ser à noite, mas aprendi um bocado sobre o sistema elétrico de outros países latino-americanos.
No segundo dia, fui almoçar com o Renê no hotel onde estávamos hospedados, pois o restaurante do hotel cinco estrelas do evento ainda era caro demais para nós. Em dada altura, percebi que o Renê estava balançando insistentemente a perna, a ponto dos copos sobre a mesa começarem a balançar também. Olhei para a cortina e notei que ela também estava balançando. “Será que ele está nervoso por causa da palestra que vai dar?” – pensei. Uma fração de segundo depois, notei que o barulho era forte demais para ser provocado por um palestrante nervoso, o que também não explicaria o comportamento dos garçons, que àquela altura já estavam correndo para fora do restaurante. Era um terremoto! Logo depois ficamos sabendo que o tremor havia se iniciado no litoral, perto de Guaiaquil, chegando até Quito com intensidade moderada. Naquele dia fiquei sabendo que muitas coisas da vida, como terremotos e orgasmos, não podem ser plenamente apreciadas da primeira vez em que ocorrem, pois simplesmente não sabemos o que se passa!
O congresso veio e se foi, minha participação foi apenas razoável e, após quatro ou cinco dias de palestras, chegou a hora de voltar para casa. Durante o congresso eu havia conhecido Dorel Soares Ramos, atualmente assistente da diretoria da Bandeirante Energia, experiente em eventos da CIER e em vôos pela VASP/Ecuatoriana. Ele rapidamente sugeriu que recolhêssemos nossas trouxas e nos dirigíssemos ao aeroporto, pois, devido ao grande número de congressistas voltando para o Brasil, havia o risco de overbooking.
A Compañia Ecuatoriana de Aviación, fundada em 1957 por equatorianos e norte-americanos, era a empresa aérea nacional do Equador. Durante os anos 70, os americanos se retiraram da empresa, que foi transformada na Empresa Estatal Ecuatoriana de Aviación, adquirindo rapidamente a reputação de baixa confiabilidade, acumulando atrasos e cancelamentos de vôos. Em 1993, com o arresto de alguns de seus aviões por parte de credores, a empresa encerrou as operações. Dois anos depois, a Ecuatoriana foi comprada pela VASP, que retomou as operações durante cinco anos, vendendo sua participação no ano 2000 para a Lan Chile, que posteriormente a vendeu para o Lloyd Aéreo Boliviano.
Imagine voar por uma empresa pós-falimentar, arruinada por vários anos de corrupção estatal, e que havia sido salva pela VASP! Pela VASP! Os equatorianos são gente boa, muito mais cordiais do que outros povos da América Latina, mas devia ser estressante trabalhar em uma empresa dessas.
Após várias horas de espera no aeroporto, onde pude engraxar meu sapato pela módica quantia de cinco dólares, escapamos do overbooking e finalmente entramos na sala de embarque. Pela janela era possível ver os aviões estacionados na pista e lá estava aquela visão paradisíaca, brilhando sob o sol equatorial, pintada com o logotipo da Ecuatoriana: um McDonnell-Douglas MD-11, um trijato comercial wideboy de longo alcance, com nove fileiras de poltronas e máquina de café espresso! A viagem de volta ao Brasil prometia ser muito mais confortável.
Quando nosso vôo foi chamado, um ônibus estacionou do lado de fora, para nos conduzir até o avião (ou “aeronave”, como eles insistem). Embarcamos no ônibus e, quando já havíamos percorrido um trecho do trajeto, notamos um funcionário do aeroporto correndo atrás do ônibus e gritando algo incompreensível. Depois de alguns momentos de confusão, fomos informados que aquele ônibus deveria conduzir os passageiros do vôo Quito-Miami, não nós. Pensei ingenuamente que, apesar das ordens, o motorista do ônibus teria um mínimo de elegância e não se importaria em conduzir ambos os grupos de passageiros, um de cada vez, se necessário. Mas que nada. Fomos levados novamente para a sala de embarque, descemos do ônibus e tivemos que caminhar até o avião.
Naquela altura já havia sido esclarecido que o MD-11 estava na verdade indo para Miami. Nosso avião (adivinhem!) era um 727, que até aquele momento estava estrategicamente escondido atrás do MD-11! Apesar de tudo, poderia ser pior (poderia ser um Legacy, por exemplo).
Muito pacientemente, entramos na lata de sardinhas e esperamos por todo o ritual pré-decolagem. Já era noite e, com um pouco de sorte, conseguiríamos evitar colidir com as montanhas que circundavam Quito. Mas os equatorianos têm sempre algumas surpresas na manga. Após taxiar, o avião dirigiu-se para a cabeceira da pista e aguardou a autorização para decolagem. Ao receber a ordem, o piloto acelerou conforme previsto nas normas, já se preparando para ganhar os céus, conforme previsto nas normas. O avião acelerou, acelerou, acelerou e, quando estava quase decolando, pof, pof, pof..., decepção geral. Os deuses equatorianos ainda nos queriam por uns momentos.
Após muita consternação entre os passageiros, fomos informados que um problema com a torre de controle havia impedido a decolagem. Não me lembro se a mensagem foi transmitida em português ou em espanhol, mas ficamos sabendo que o avião deveria voltar à cabeceira da pista e aguardar nova autorização de decolagem.
Então, voltamos à cabeceira da pista. Éramos vários brasileiros corajosos, alguns argentinos e uma tripulação equatoriana que parecia muito a fim de brincar conosco.
Novamente, o avião acelerou, acelerou, acelerou e ... pof, pof, pof... Tudo indicava que iríamos passar mais uma noite em Quito, dessa vez com a cortesia da Ecuatoriana.
O comandante informou que um problema qualquer com a torre de controle havia impedido a decolagem e, para surpresa geral, avisou que deveríamos voltar à cabeceira da pista para aguardar nova decolagem. Tudo bem, talvez eles já tivessem removido o controlador de vôo que havia desmaiado. Talvez não fosse um problema com o transponder nem nada parecido. Talvez fosse só uma antena solta ou um estagiário que havia apertado o botão errado.
Voltamos à cabeceira da pista. Eu sempre tentara imaginar o que se passa na cabeça de passageiros que estão prestes a sofrer um acidente aéreo. Bem, de maneira geral, ou não se passa nada, ou os pensamentos são irrelevantes ou apenas totalmente impublicáveis.
Novamente, o combalido 727 acelerou, acelerou, acelerou e ... decolou! Gargalhadas, risos histéricos, sorrisos, aplausos. Nunca uma decolagem foi tão esperada! O avião deu um forte solavanco (mais risos histéricos) e estabilizou. Estávamos a salvo.
Com a paciência já habitual, esperamos pelos esclarecimentos do comandante, pois muitos de nós queriam saber qual tipo de problema havia ocorrido (é bom lembrar que o avião estava cheio de engenheiros e esse tipo de bicho costuma ser muito chato). Os esclarecimentos nunca vieram e muitos passageiros passaram a viagem até Manaus segurando certas partes do corpo, tentando evitar a saída do almoço (ou, em alguns casos, tentando evitar a saída do almoço do dia anterior).
O serviço de bordo começou logo, e as comissárias passaram servindo refrigerante, cerveja, whisky, chá de camomila e passiflora. Então a tempestade equatorial mais próxima resolveu entrar na brincadeira. Turbulência, turbulência, turbulência. As luzes da cabine foram reduzidas, as comissárias e um comissário dirigiram-se aos respectivos assentos e amarraram-se fortemente. Eu sempre imaginara que uma das funções dos comissários de bordo era assegurar a manutenção da calma a bordo, mas garanto que não me acalma nada ver um comissário agarrando-se nervosamente a um cinto de segurança, ao mesmo tempo em que segura um microfone para advertir, em espanhol, uma passageira que insistia em ir ao banheiro: “Señora, toma assento! Señora, toma assento” (imagino que em português isso possa ser traduzido como “senta logo, vaca velha!”).
Para finalizar, mais um toque de elegância da tripulação. Pouco antes do jantar, levantei-me para ir ao banheiro. Ao sair daquela caixinha apertada, o chefe da tripulação estava dando instruções para uma das comissárias sobre como servir o jantar. Só me lembro da parte em que ele disse: “Essas são para os pobres”, o que significava que aquelas bandejas eram destinadas à classe executiva, não à primeira classe (que ficava separada da ralé por uma mera cortina). Bem, minha passagem havia sido financiada pela Copel, mas a passagem da minha esposa foi paga com nosso próprio dinheiro, em suaves prestações. E é assim que a tripulação se refere àquele pessoal que economiza bravamente para pagar os salários deles? Em todo caso, achei melhor não reclamar naquela hora. Ninguém gosta de espaguete ao molho de cuspe.
E assim, depois de muitas emoções e apesar de todos os prognósticos, chegamos vivos em Manaus, onde a tripulação equatoriana foi trocada por uma de brasileiros, e seguimos para São Paulo, onde minha passagem para Curitiba foi roubada. Mas essa é outra história!
Augusto Pinochet será cremado hoje em uma cerimônia militar, sem honras de Chefe de Estado. Não se esperava que fosse diferente, pois a atual presidente do Chile, Michelle Bachelet, presa e torturada durante a ditadura, já havia declarado que não compareceria às cerimônias. Centenas de chilenos têm feito fila para ver o corpo: os simpatizantes comparecem para prestar as últimas homenagens e os adversários para se certificar que o homem está de fato morto e que será cremado. Pinochet assumiu o poder em 1973, por meio de um golpe de Estado contra o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Ele é acusado de ter mandado torturar mais de 28 mil pessoas, de ter ordenado mais de três mil assassinatos e de ter arquitetado a “Operação Condor”, destinada a reprimir (leia-se “caçar” e “matar”) os opositores das ditaduras sul-americanas (Chile, Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Brasil) em qualquer lugar do continente. Assim, nem o Chile nem o mundo sentirão muita falta do general. Outro ditador latino famoso, Fidel Castro, subiu ao poder em 1959, por meio de um golpe de Estado contra o governo impopular de Fulgencio Batista (que também havia assumido o poder por meio de um golpe de Estado, em 1952). A história recente da América Latina é assim pontuada pela vida desses dois ditadores, imensamente diferentes entre si em certos aspectos, imensamente semelhantes em outros. Um militar carrancudo e um caudilho carismático. Ambos centralizadores, ambos cassadores de liberdades individuais. A primeira diferença entre Castro e Pinochet reside no apoio popular do primeiro, que lutava contra um governo autoritário, enquanto o segundo era um militar lutando contra um governo democrático. Outra diferença é que Allende era amigo pessoal de Castro, e diz a lenda que ambos pretendiam implantar no Chile uma nova Cuba. Isso coloca Pinochet e Castro em posições políticas opostas, pois o general chileno desejava evitar a implantação do socialismo que o caudilho cubano tanto admirava. Apesar de tudo, a posterior transição da ditadura chilena para a democracia foi feita de forma razoavelmente pacífica. Como no Brasil, não houve novo golpe de Estado, não houve levante popular, não houve guerra. Após a derrota de Pinochet no plebiscito de 1988, a constituição chilena foi modificada e, em dezembro de 1989, Patricio Aylwin foi eleito presidente, exercendo um mandato regular de quatro anos. Desde então, todas as eleições presidenciais chilenas têm sido realizadas de forma democrática. A diferença entre eles e nós é que os militares chilenos entregaram uma economia em bom estado, enquanto a economia deixada pelos militares brasileiros necessitou de vários anos e vários planos econômicos para ser estabilizada. Da mesma forma que Pinochet, Castro subiu ao poder por meio de um golpe de Estado. Da mesma forma que Pinochet, Castro ficou famoso por dar sumiço aos opositores do governo (ou “contra-revolucionários”, como se diz em Cuba). E, da mesma forma que Pinochet, é muito provável que Castro tenha volumosas aplicações financeiras no exterior. Mas, desde que assumiu o governo de Cuba, Castro não o largou mais. E, agora sabemos, Cuba é muito mais parecida com uma monarquia, onde o poder é passado entre os membros da família, do que com a república socialista unipartidária que pretendia ser. Ainda assim, Castro tem muito mais apelo junto aos brasileiros do que Pinochet. Prova singela disso é o hábito dos brasileiros chamarem o comandante cubano pelo prenome, tratamento jamais reservado a Pinochet. A resposta provavelmente está no fato de que Castro representa, na mente popular, a luta conta o “imperialismo norte-americano”, enquanto Pinochet representa justamente a adesão a esse imperialismo. Entretanto, ambos os golpes de Estado resultaram em mortandade, prisões políticas e restrição de liberdades. Que diferença há, para vítimas e familiares, se um desses regimes foi ungido pelo povo e o outro não? Em um mundo redondo, que diferença há, afinal, entre extrema esquerda e extrema direita? Mas é assim que prossegue a América Latina: de salvador em salvador, de revolução em revolução, de comandante em comandante, de esperança em esperança. E, como esperança custa pouco, resta-nos imaginar que em um futuro distante o caudilhismo será por fim banido, as relações internacionais serão profissionalizadas, os países latino-americanos adotarão políticas de Estado em vez de políticas de governo, a liberdade sócio-econômica vicejará, os militares não terão mais nada a ver com política e nossos sistemas políticos serão independentes da ideologia do momento. Até lá, as veias da América Latina continuarão tão abertas quanto sempre foram e nossa história continuará resumida a uma nota de rodapé no grande livro da história universal.
É divertido imaginar como seria um universo no qual o céu e o inferno realmente existissem. No céu certamente encontraríamos Madre Teresa de Calcutá, alguns santos católicos (mas não todos) e, talvez, um ou dois papas, além de James Clerk Maxwell e Michael Faraday. No inferno encontraríamos gente como Sigmund Freud, Albert Einstein, Carl Sagan, Richard Feynman, Bertrand Russel, Hipácia de Alexandria, Charles Darwin, Daniel Dennett, James Randi, Michael Shermer, Carlos Drumond de Andrade, Linus Torvalds, Newton da Costa, Ligia Fagundes Teles, Isaac Asimov, Douglas Adams, Arthur C. Clarke, Stanislaw Lem, Woody Allen, Marcelo Gleiser, Peter Singer, Albert Camus, Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre e vários outros. Resumidamente, quase todas as pessoas interessantes e com quem valeria a pena conversar estariam no inferno. É claro que também encontraríamos lá algumas figurinhas difíceis, como Hitler, Stalin, Getúlio Vargas e Carlos Prestes, mas em um lugar tão grande seria fácil encontrar um cantinho reservado para uma conversa demorada (já que o tempo não seria problema) com as maiores mentes científicas e literárias que já existiram. E isso incluiria, é claro, Richard Dawkins. Richard Dawkins é um biólogo evolucionista nascido em 1941, no Quênia, mas educado na Inglaterra. A partir de 1976, com a publicação de "O gene egoísta" [1], Dawkins começou a se sobressair como divulgador da ciência, humanista e grande defensor do dawinismo e do racionalismo, levando tal defesa tão longe que, se Thomas Huxley foi apelidado de "o buldogue de Darwin", muitos acreditam que Dawkins deveria ser apelidado de "o rottweiler de Darwin". A pregação anti-religiosa tem sido a principal atividade de Dawkins nos últimos tempos, principalmente após a publicação do livro "The God delusion" [2], em setembro de 2006. Dawkins também acaba de inaugurar a "Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência"[3], atualmente em fase de desenvolvimento. Em uma entrevista concedida à BBC [4], Dawkins afirma que não deseja atingir as pessoas profundamente religiosas, mas apenas os indecisos, aquelas pessoas levemente religiosas, que vão à igreja uma vez por ano e nunca pensam muito sobre o assunto. "Eu quero dar a elas muito em que pensar", diz Dawkins. Em vários pontos, Dawkins tem razão. Ele condena, por exemplo, a visão preconceituosa de que os ateus seriam necessariamente pessoas "más". De fato, quando alguém pergunta "você acredita em Deus?", a pergunta verdadeiramente implícita é "você acredita em um Deus que possa mandá-lo para o inferno caso você faça algo moralmente condenável?". Nas mentes simples de tais pessoas, Deus seria a única razão capaz de evitar, por exemplo, que alguém cometa assassinato. Contudo, mesmo ateus radicais têm uma razão muito simples para não matar outras pessoas: ao realizarmos tal ato, estaríamos dando a autorização explícita para que os outros nos matem. Imagino que assassinos devam se tornar inquietos, desconfiados e hipertensos, pois passam a vida tentando evitar que os outros façam com eles aquilo que eles fizeram com os outros. A raiz da verdadeira bondade não reside na crença em Deus ou no juízo final, mas em uma forma altamente refinada de altruísmo recíproco que só os seres humanos, até onde sabemos, foram capazes de desenvolver. Além disso, todas as sociedades humanas desenvolveram um sistema de controle de atividades, que funciona bem em alguns lugares e muito mau em outros, mas certamente muito melhor do que um sistema baseado no temor divino: o sistema judiciário, ao qual todos estamos sujeitos. Dawkins também tem razão quando levanta a questão do "abuso mental" sofrido pelas crianças de todas as religiões. Ele argumenta que não há maior sentido na expressão "criança católica" do que há na expressão "criança marxista". Assim, deveríamos deixar as crianças crescerem livremente, imersas somente em algum tipo de filosofia moral que possibilitasse a formação de valores, e deixar a questão da escolha religiosa para mais tarde, quando a criança tivesse argumentos para tal. Só que esse mundo ideal jamais existirá, a não ser em poucos casos, pois os pais estão quase sempre ansiosos para impor seus sistemas de crenças sobre os filhos, seja por medo, tradição ou um misto dos dois. O que dizer, por exemplo, daquele ritual de purificação para recém-nascidos que os católicos tanto prezam? A quem se destina tal ritual? À criança ou aos pais e à comunidade religiosa? Em outros pontos, Dawkins parece um pouco ingênuo ao considerar a mente religiosa. Após descrever detalhadamente que a vida na Terra e a consciência humana resultam de milhões de anos de seleção natural, e que não haveria papel algum para Deus nesse processo, ele sempre se depara com a afirmação de que Deus está além da razão e da compreensão humanas e de que as leis da física nada são para ele. Em outras palavras, por que um ser onipotente deveria ser limitado pela lógica humana? Dawkins responde que, se deixarmos de lado a razão (ou seja, a ciência), poderemos demonstrar a existência de qualquer coisa, desde fadas encantadas até o monstro de espaguete voador, o bule de chá orbital, o unicórnio dourado e outros milhões de coisas. Esse argumento não é propriamente original, embora Dawkins o use com maestria, mas ele tem apelo a um público específico: o público dotado de mente cética e científica. O argumento pode ter ainda algum apelo aos indecisos de Dawkins, mas os religiosos jamais admitirão um deus limitado pela lógica humana, pois os deuses, desde o início, foram imaginados como criaturas sobre-humanas, vivendo em um mundo à parte (Olimpo, Valhalla, Vorta Vor, Sha Ka Ree, Céu, etc), criadores das leis físicas e não regidos por elas. Em todos os tempos, vários cientistas e intelectuais têm se posicionado contra a religião. Dawkins, contudo, vai longe demais. Ele chegou à conclusão de que não é suficiente ensinar ciência, mas que é necessário atacar frontalmente as religiões, as quais representariam "a raiz de todo o mal". Por exemplo, no segundo capítulo de seu livro mais recente, ele afirma que: "O deus do Antigo Testamento é provavelmente o personagem mais desagradável de toda a ficção: ciumento e orgulhoso disso; um maníaco por controle, miserável e injusto; um abusador vingativo, eugenista sedento por sangue, misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista e caprichosamente malévolo". Quando foi lido frente a uma audiência de 600 pessoas [5], esse parágrafo provocou risos e aplausos, mas dificilmente atrairá a simpatia de judeus, cristãos e muçulmanos, os quais rapidamente apresentarão centenas de argumentos para provar que Deus não é tão mau assim. Esse "ateísmo radical", "militante" ou "beligerante" não é novidade, embora os propósitos tenham variado ao longo do tempo. Em 1844, Karl Marx, um sujeito muito menos bem-humorado do que Dawkins e bem menos agradável de se ler, escreveu: "A religião é o ópio do povo. É preciso combater a religião como felicidade ilusória das pessoas em nome da felicidade real". O materialismo dialético de Marx e Engels, uma filosofia tão boa quanto qualquer religião fundamentalista, encontrou terreno fértil nas mentes doentias de gente como Lênin e Stalin, que tentaram implantar o comunismo (ou, mais apropriadamente, o socialismo de Estado) na URSS, ao mesmo tempo em que combatiam qualquer tipo de religião por meio da força. Na verdade, todos os assassinatos cometidos em nome do comunismo, na ex-URSS ou em qualquer outra parte, constituem uma grande prova de que Dawkins está errado, ou ao menos parcialmente enganado, ao afirmar que a religião é a raiz de todo o mal. A raiz de todo o mal são idéias totalitárias e dogmáticas, papel freqüentemente encarnado pela religião, mas não só por ela. E se o ateísmo se tornar dogmático, terá aberto a porta para todo tipo de arbitrariedades. Minha posição pessoal, portanto, é a do liberalismo. Não me sinto à vontade em ver propostas para que o ensino religioso seja oferecido em escolas públicas. Não me sinto à vontade quando me perguntam se acredito em Deus, pois sei o que está por trás da pergunta. Não gosto de ver crianças freqüentando igrejas (e não só por causa da doutrinação explícita, mas também porque as crianças têm muito mais o que fazer com um tempo que não volta mais). Acho simplista demais acreditar que uma comunidade de camponeses semi-alfabetizados às margens do Mediterrâneo descobriu todos os segredos do Universo. Mas também não gosto de ver pessoas sendo forçadas a abandonar a religião. Já vimos essa história antes e sabemos como ela acaba. A falsa ciência certamente deve ser combatida, o que inclui a nova praga do "design inteligente", anteriormente denominado "criacionismo científico". Mas esse combate deve ser feito por meio da divulgação de idéias científicas, não do confronto direto. Os religiosos continuarão a argumentar que Deus existe além da matéria, que não devemos estudar o momento inicial da criação, que o evolucionismo é "apenas uma teoria", que homens e dinossauros foram contemporâneos, que a Bíblia deve ser adotada como livro-texto nas escolas e que todas as respostas estão no Gênesis. A ciência tem respostas para todas essas questões, além de ter uma vantagem que a religião não tem: a ciência é capaz de evoluir e de corrigir seus próprios erros. São essas respostas que devemos divulgar, e não a idéia de que a religião deve ser erradicada da face da Terra. Não estou sozinho nesse pensamento liberal. Marcelo Gleiser escreveu recentemente dois artigos criticando o radicalismo de Dawkins [6] [7]. Gleiser, que tem se declarado ateu em bem mais de uma oportunidade, diz que "o sobrenatural é completamente incompatível com uma visão científica do mundo". Mesmo assim, ele diz não acreditar em extremismos e intolerância. De fato, se o ateísmo for capaz de provocar uma única morte devido à radicalização proposta por Dawkins e outros, esses novos ateus terão provado serem tão ruins quanto os religiosos, e de nada servirão para a humanidade. [1] DAWKINS, Richard. O gene egoísta. Ed. Itatiaia. 2001. [2] DAWKINS, Richard. The God delusion. Houghton Mifflin. 2006 [3] Disponível em http://www.richarddawkins.net/foundation . Acesso em: 04 dez. 2006. [4] Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=LC9fB_oX4Y0 . Acesso em: 04 dez. 2006. [5] Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=YA9sFkYZSk8 . Acesso em: 04 dez. 2006. [6] GLEISER, Marcelo. Ateísmo radical. Folha de São Paulo. 26 nov 2006. [7] GLEISER, Marcelo. Ateísmo (menos) radical. Folha de São Paulo. 3 dez 2006.
Após as eleições deste ano, o presidente Lula começou a se revelar extremamente preocupado com o crescimento econômico do país, talvez por ter finalmente percebido que, como disse Vinícius Freire [1], "Lula 1 perde até para FHC2". E, talvez seguindo a sugestão de Alckmin, de que o Presidente da República deve chamar responsabilidades para si, Lula afirmou recentemente, usando seu português peculiar: "E não me pergunte o que é ainda, que eu não sei, e não me pergunte a solução, que eu não a tenho, mas vou encontrar, porque o país precisa crescer." [2]. Não sei se é apenas curioso ou realmente assustador que um governo que ocupou o Planalto nos últimos quatro anos ainda não saiba do que o país precisa para crescer. E não sei se é apenas curioso ou realmente assustador que a resposta da pergunta de meio trilhão de dólares esteja nas mãos de Lula. Em um país realmente liberal, a resposta seria simples: laissez faire, laissez-passer, Monsieur President. Controlem a oferta de moeda, tributem moderadamente, fiscalizem e deixem as empresas em paz. Mas é claro que isso é exigir demais de um governo que não admite saber dos aumentos da gasolina por meio dos jornais. A resposta de Lula, seja qual for, provavelmente será no tom centralizador e estatizante do qual o PT não consegue fugir. Parece haver um consenso junto ao governo atual de que o crescimento do país depende muito do setor público e pouco do setor provado. Contudo, Franco [3] mostra claramente que é o contrário que ocorre. O crescimento econômico depende do investimento, ou, em outras palavras, da Formação Bruta de Capital Fixo – FBCF. Nos tempos do “milagre brasileiro”, o governo contribuía com 12% do PIB para o FBCF, e o setor privado contribuía com 16%, somando 28% do PIB. A partir de 1988, com a decisão constitucional de se manter o Estado como fornecedor de uma grande rede de proteção social, a participação do governo no FBCF foi diminuindo, chegando aos atuais 1% do PIB atuais, com o setor privado contribuindo com 19% e somando meros 20%. Compare-se esse valor ao FBCF dos países asiáticos emergentes, em torno de 35% do PIB, e a razão do nosso atraso fica evidente: o governo não investe, pois está constitucionalmente amarrado a obrigações sociais, e não deixa a iniciativa privada investir, seja por razões ideológicas, seja por razões tributárias e burocráticas. A despeito disso tudo, no momento é claro o desejo de Lula em manter o Estado como grande investidor, atuando em setores onde a iniciativa privada poderia atuar de maneira muito mais eficiente. No último dia 22, por exemplo, Lula afirmou ter intenções de transformar a Eletrobrás em uma Petrobras do Setor Elétrico [4]. Roberto Campos deve estar se revirando no túmulo. [1] FREIRE, Vinícius Torres. Lula 1 perde até para FHC 2. Folha de São Paulo. 19 de novembro de 2006. [2] FOLHA DE SÃO PAULO. 23 de novembro de 2006. [3] FRANCO, Gustavo H.B. Crescimento? É com o mercado. Revista Época. 11 de novembro de 2006. Disponível em http://www.econ.puc-rio.br/gfranco/Epoca5.htm. [4] AGÊNCIA BRASIL. Lula determina que se achem meios para a Eletrobrás captar recursos. 22 de novembro de 2006. Disponível em http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2006/11/22/materia.2006-11-22.8107373511/view.
Muito provavelmente sou o único cidadão desse país que tem sonhos com políticos e não é político. Certa vez, ao me recuperar de uma anestesia após uma endoscopia, sonhei com FHC. Pouco antes das eleições presidenciais de 2006, sonhei com Lula. Hoje, voltei a sonhar com ele, dessa vez acompanhado de Alckmin. No sonho, Lula e Alckmin estavam participando de um debate televisivo durante a campanha para a prefeitura de São Paulo (!). Lula estava do jeito de sempre, mas Alckmin estava mais baixo, menos calvo e um pouco parecido com Ross Perrot. Em vez de ser realizado em um estúdio de TV, o debate era realizado em uma espécie de ginásio de esportes, com os debatedores no centro da quadra e o público nas arquibancadas. Após várias trocas de acusações, o debate começou a ficar mais acalorado e Alckmin partiu literalmente para cima de Lula. Após sacudir Lula por uns instantes, deu-lhe um soco no ombro direito, usando uma luva de boxe. Não me perguntem de onde surgiu a luva, mas o público adorou! Então, Lula demoliu Alckmin e tornou-se o único candidato da história brasileira a vencer um debate por nocaute. Uma bela metáfora freudiana do que aconteceu durante a campanha para o segundo turno. Pena que não chegou a tempo de avisar Alckmin.
Na condição de engenheiro e professor de máquinas elétricas, freqüentemente recebo e-mails ou me envolvo em discussões com um tipo especial de inventor: o inventor de moto perpétuo. Não se trata de nada novo, pois a primeira tentativa de se construir um moto perpétuo, ou perpetuum mobile, data de 700 dC, mas a internet tem ajudado a divulgar o sonho da energia livre, barata e inesgotável.
Um moto perpétuo (ou moto contínuo) é uma máquina hipotética que seria capaz de operação contínua, sem consumo de energia ou ação externa, apenas por meio de conversões internas de energia. Sabemos atualmente que tais máquinas são impossíveis, por duas razões. Primeira, porque elas violam as leis da termodinâmica, que dizem ser impossível criar energia, a qual seria necessária para suprir as perdas. Segunda, porque, caso tais máquinas existissem, elas dificilmente poderiam ser escondidas do público. O impacto tecnológico seria tão grande que o inventor seria elevado imediatamente à categoria de um sucessor de Leonardo da Vinci, Thomas Alva Edison e Einstein (todos juntos). Como isso não aconteceu, decorre logicamente que os motos perpétuos não existem.
Ainda assim, qualquer estudante de engenharia elétrica já pensou, mesmo que brevemente, em construir uma máquina desse tipo. Afinal, máquinas elétricas podem funcionar como gerador ou como motor, dependendo da maneira como são ligadas. Se conectarmos uma máquina de corrente contínua a uma bateria, ela funciona como motor. Se, por outro lado, conectamos o eixo da máquina a uma turbina, aparece uma tensão elétrica nos terminais. Então bastaria conectarmos o eixo de um gerador ao eixo de um motor e ligar em paralelo os terminais de ambas as máquinas. Um impulso inicial faria o gerador gerar tensão elétrica, que seria usada pelo motor para produzir potência mecânica no eixo, que seria absorvida pelo gerador, induzindo tensão e assim por diante até o infinito.
Funciona? Bem, funciona, mas não até o infinito. Um dispositivo desses, desde que adequadamente construído, lubrificado, balanceado e super-dimensionado de modo a reduzir perdas, funcionaria durante algum tempo, talvez uma fração de segundo, mas não mais do que alguns segundos, e estaria longe de ser um moto perpétuo.
Teoricamente, existiriam dois tipos de moto perpétuo: os de primeira espécie, e os de segunda espécie. Os de primeira espécie produziriam mais energia do que consomem, violando a lei da conservação da energia, que é a primeira lei da termodinâmica. Já os de segunda espécie converteriam energia térmica espontaneamente em trabalho mecânico, violando a segunda lei da termodinâmica, que diz que a entropia de um sistema sempre aumenta entre conversões sucessivas de energia (ou, em palavras mais simples, o calor não pode passar espontaneamente de um corpo frio para um corpo quente).
Naturalmente, nenhum desses argumentos convencerá os inventores de motos perpétuos, especialmente porque alguns deles sabem que as leis da termodinâmica foram desenvolvidas, em parte, para explicar a impossibilidade de se construir motos perpétuos! Além disso, do ponto de vista de um leigo, a termodinâmica parece ausente do problema de se construir uma máquina elétrica perfeita. Contudo, quase todas as perdas em uma máquina elétrica (motor ou gerador) são de natureza térmica, de modo que a termodinâmica está sempre presente.
Do ponto de vista de um engenheiro projetista de máquinas elétricas, que passa boa parte da vida tentando aumentar o rendimento operacional de 90% para 91%, o sonho do moto perpétuo é mais distante do que o sonho do PIB brasileiro ultrapassar o norte-americano antes do final da década. Afinal, uma máquina que tenha um rendimento (*) de "apenas" 99,99999999% ainda estará infinitamente distante de se tornar um moto perpétuo. Sem falar que, se uma máquina dessas for realmente inventada, levará uma eternidade para testá-la!
É claro que sempre há o argumento de que o nosso conhecimento das leis da física pode ser incompleto (ninguém duvida disso!) ou que, no futuro, poderemos ser capazes de alterar essas leis. Talvez. Mas isso acontecerá só um pouco depois de termos conquistado as estrelas, acabado com a pobreza e adquirido a capacidade de multiplicar os pães e andar sobre as águas. Até lá, continuará valendo a frase popularizada por Milton Friedman, economista norte-americano recentemente falecido: "não existe almoço de graça"!
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(*) O rendimento, ou eficiência, de uma máquina é a relação entre a potência de saída e a potência de entrada. Como não se pode obter na saída mais do que se tem na entrada, o rendimento é sempre menor do que 100%.
Em entrevista coletiva organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na última sexta-feira, Dom Aldo Pagotto, presidente da Pastoral Social da CNBB, fez duras críticas ao programa Bolsa Família:
“Não estamos muito satisfeitos com o programa como está. No Nordeste existem pessoas que não querem trabalhar porque se contentam com o mínimo. As pessoas precisam ser inseridas no mundo do trabalho. A capacitação não pode ser só pelas universidades, mas é preciso investir em educação profissionalizante para os trabalhos. Do modo como está sendo levado, (o Bolsa Família) é um programa assistencialista que vicia. É só uma ajuda pessoal familiar. O povo tem que se organizar. Do jeito como está, levou à acomodação e ao empanzinamento”.
É surpreendente que uma entidade representante da era do bronze, que frequentemente sugere coisas como a suspensão do pagamento da dívida externa, ato que mergulharia o Brasil em mais uma década perdida, seja capaz de esboçar um raciocínio com um mínimo de validade econômica. Só faltou citar o termo "incentivo perverso".
Contudo, para mostrar que continua aferrada às práticas do passado, quando o Estado era o único e grande empreendedor do país, o representante da CNBB diz que "foi providencial que o governo tenha colocado 'freios' na onda de privatização instalada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso". A CNBB informa ainda que quer realizar um "plebiscito educacional" sobre a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, no momento uma das empresas mais lucrativas do país e cuja estatização seria um retrocesso impensável. Tudo bem. Os plebiscitos da CNBB rendem tantos resultados quanto os pedidos por paz do Papa.
O presidente da Caritas (organismo da CNBB), D. Demétrio Valentini, afirma que "é preciso ter coragem para conferir o que foi feito" (na privatização da Vale). Ele se esquece de dizer que a Vale foi privatizada em leilão público e que cabe ao Judiciário, não à Igreja, investigar possíveis irregularidades. Também se esquece de dizer que o verdadeiro ato de coragem teria sido fazer o pronunciamento sobre o Bolsa Família antes das eleições presidenciais.
Em outubro de 1906, o brasileiro Alberto Santos-Dumont já havia feito seu primeiro vôo com o 14 Bis, a primeira aeronave mais pesada do que o ar a levantar vôo sem equipamentos auxiliares. Pela façanha, recebeu um prêmio de 3.000 francos (cerca de R$ 30.000 atuais). Em 12 de novembro do mesmo ano, o brasileiro voltou ao comando do 14 Bis, realizando o primeiro vôo reconhecido pela Federação Aeronáutica Internacional.
Muitos brasileiros ficam irritados quando os norte-americanos afirmam que o avião foi inventado pelos irmãos Wright. O interessante é que muitos países têm seus pioneiros da aviação. Os neozelandeses têm Richard Pearse, os alemães têm Karl Jatho, os romenos têm Traian Vuia e até mesmo os irmãos Wright têm concorrentes nos Estados Unidos, pois muitos dizem que Gustave Whitehead teria alçado vôo em uma aeronave mais pesada do que o ar em 1901, dois anos antes de Wilbur e Orville. Na época, havia uma grande concorrência entre inventores de diversas partes do mundo, pois, com a invenção do motor a combustão interna, era só uma questão de tempo até que alguém resolvesse o complicado problema do vôo com o mais pesado do que o ar. Assim, para nós, brasileiros, a questão da primazia de Santos-Dumont não é realmente importante.
Lembremos que, por volta do início do século XX, os Estados Unidos já haviam ultrapassado o PIB da Inglaterra. Já havia naquele país, como sempre houve, um grande respeito pela iniciativa privada, por invenções e por inovações. De fato, Wilbur e Orville Wright trabalharam em terra pátria, de olho no potencial comercial do invento, escondendo o projeto dos concorrentes. O Brasil, por outro lado, era uma grande fazenda recém-saída do Império. Não havia aqui indústria de porte, pois ainda sofríamos os efeitos devastadores da administração colonial de um Portugal tão atrasado que impedia que as colônias tivessem indústrias de qualquer espécie ou sequer imprimissem livros. A Santos-Dumont, como a tantos outros antes e depois dele, não restava alternativa a não ser atravessar o Atlântico e instalar-se no centro do mundo civilizado: Paris.
Na França, Santos-Dumont construiu 11 dirigíveis entre 1898 e 1905. Usando o dirigível Número 6, ele conquistou um prêmio de 100.000 francos, após partir do Parque Saint Cloud, contornar a Torre Eiffel e retornar em menos de 30 minutos, mantendo velocidade acima de 22km/h. Depois disso, Santos-Dumont tornou-se uma celebridade em Paris, a ponto de ter seu estilo de vestuário copiado pelos parienses, e viajou aos Estados Unidos em 1904, sendo recebido pelo presidente Theodore Roosevelt. Isso tudo ocorreu antes do 14 Bis e daquele que foi a mais perfeita de todas as aerovaves primitivas: o Número 19, mais conhecido como Demoiselle. Ao contrário dos irmãos Wright, que tinham ambições militares para o Flyer, Santos-Dumont sonhava com um futuro no qual todos teriam um avião particular. As aplicações militares chegaram logo, mas muita gente ainda continua sonhando o sonho do inventor brasileiro.
Santos-Dumont não precisa ser lembrado por ter sido o inventor do avião, por ter sido o primeiro a levantar vôo sem equipamentos auxiliares em uma aeronave mais pesada do que o ar ou por ter sido o inventor do ultra-leve. Ele deve ser lembrado simplesmente por ter mostrado que, dadas as condições adequadas, os brasileiros podem concorrer em pé de igualdade em ciência e tecnologia de ponta. É isso que realmente importa.
Ainda há alguma esperança no ar. O Projeto de Lei Substitutiva 124/06, que está em tramitação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado e prevê uma maior regulamentação sobre o acesso à internet, foi retirado da pauta nesta terça-feira (7/11).
O comentário do ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos sobre o projeto foi: "Qualquer tentativa de coibir a liberdade de expressão deve ser liminarmente afastada. Como dizia aquele juiz da Suprema Corte americana, a Constituição não quer que a imprensa seja justa. A Constituição quer que a imprensa seja livre. Acredito que o projeto tem problemas."
Não há data prevista para que o projeto volte a à pauta.
De acordo com reportagem da Folha de São Paulo , a "Comissão de Constituição e Justiça do Senado votará, na próxima quarta-feira, um projeto de lei que obriga a identificação dos usuários da internet antes de iniciarem qualquer operação que envolva interatividade, como envio de e-mails, conversas em salas de bate-papo, criação de blogs, captura de dados (como baixar músicas, filmes, imagens), entre outros. " [1] . O projeto prevê ainda pena de reclusão de dois a quatro anos para quem acessar a internet sem se identificar, sendo que os provedores de internet ficariam responsáveis pela veracidade dos dados cadastrais dos usuários e estariam sujeitos à mesma pena. Não tenho dúvidas que há muita liberdade na internet e que muita gente é colocada em perigo por causa disso, especialmente crianças, que se tornam vítimas de pedófilos, e clientes de bancos, que se tornam vítmas de hackers. As dúvidas que tenho são apenas duas: 1. Quem garante que, após a entrada em vigor da lei, um infrator não poderá ter acesso aos documentos de outra pessoa, usando-os para abrir uma conta em um provedor qualquer, cometendo os mais variados crimes e fazendo a culpa recair sobre o dono dos documentos? Se contas bancárias, que exigem RG e CNPF, são abertas facilmente com o uso de documentos de terceiros, quem garante que o mesmo não acontecerá com contas de acesso à internet? 2. Quem garante que essa cassação da liberdade de acesso não será o início de um processo maior de controle? Quem garante que esse declive em que estamos prester a entrar não é escorregadio? Afinal, como dizia David Hume, filósofo escocês do século XVIII, "raramente se perde qualquer tipo de liberdade de uma única vez". [1] LOBATO, Elvira. Projeto quer controlar acesso à internet. Folha de São Paulo. 6 de nov. 2006. Disponível em < http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u20908.shtml>. Acesso em 7 de nov. 2006.
Lula está reeleito. Como isso pode ter acontecido é coisa que somente os historiadores do futuro, trabalhando sem vínculos emocionais com o passado, poderão explicar. Nós, que vimos Lula ser politicamente destruído em algum ponto entre 2005 e 2006, dificilmente conseguiremos entender. O medo insano das privatizações talvez tenha colaborado. O medo da perda do Bolsa Família talvez tenha ajudado, configurando aquilo que JABOR chamou de "voto de cabresto moderno" [1]. O discurso evasivo do experiente e carismático Lula, frente à indecisão do estreante e tecnocrata Alckmin, talvez tenha desempenhado papel vital. O fato é que Lula está reeleito e não mudará de residência antes de 2010. Em sua primeira e surpreendente entrevista coletiva após a reeleição, Lula reafirmou seu compromisso com as políticas de transferência de renda, dizendo que é preciso colocar o Nordeste no mesmo patamar de desenvolvimento do Sul e do Sudeste. Disse também que, embora não tenha cursado faculdade de economia, conseguiu provar que não é preciso fazer crescer o bolo para só então distribuir as fatias, mas sim que é possível distribuir antes as fatias para então ver o bolo crescer. O problema é que o raciocínio esboçado não faz sentido, pois a redistribuição das fatias do bolo não acrescenta um único centavo ao PIB [2]. O raciocínio de Lula é de que as pessoas que recebem o subsídio federal usarão o dinheiro para comprar comida e outras coisas. Como a comida e essas outras coisas serão produzidas por outras pessoas, o dinheiro será recebido por elas e usado para pagar insumos, funcionários, impostos, etc, resultando em crescimento econômico. Contudo, somente seria válida no caso de investimentos produtivos, não de transferências de renda. O PIB, ou Produto Interno Bruto, lembremos, é uma medida do tamanho de uma economia, definido como o valor de mercado de todos os bens de consumo e serviços produzidos por um país em determinado período. Uma economia só cresce quando o PIB cresce. O efeito multiplicador, conceito estreitamente ligado à escola keynesiana de economia, ocorre quando uma variação nas despesas provoca uma variação desproporcional na demanda agregada, que é a demanda total da economia. Por exemplo, a construção de uma usina hidrelétrica de grande ou médio porte gera investimentos de alguns milhões de dólares, dinheiro que será recuperado com lucro pelos investidores. Contudo, o benefício gerado para a sociedade pode ser maior do que o investimento na usina, pois a construção de uma hidrelétrica geralmente acarreta na construção de vilas operárias e no aquecimento da economia local. Esse aquecimento pode perdurar apenas durante a construção da usina, mas, de qualquer forma, o efeito do multiplicador tende a se dissipar no longo prazo. É preciso notar que investimento é diferente de transferência de renda. No primeiro caso, temos um montante de capital, obtido por meio da captação junto a instituições financeiras ou da abstenção de consumo por parte de investidores privados, que será usado para construir um empreendimento o qual deverá gerar retorno superior ao capital investido. Caso não gere, os sócios perderão dinheiro e correrão o risco de abrir falência. Esse é o risco que investidores privados correm e é bem conhecido. Mas, mesmo quando não dão certo, investimentos privados geram empregos, ainda que não empregos perenes. No segundo caso, o da transferência de renda, o que ocorre é apenas a realocação de um montante financeiro. Desconsiderando-se os custos operacionais e possíveis "vazamentos" pelo caminho, o dinheiro que geraria consumo em um lugar apenas gerará o mesmo consumo em outro lugar. Logo, o PIB não é afetado. Por exemplo, imaginenos que uma quantia de R$ 950 mil, captada pelo governo sob forma de impostos, seja transformada integralmente, em determinado período, em quotas do Programa Bolsa Família no valor unitário de R$95, distribuídas a 10 mil famílias pobres. Tais famílias certamente usarão o dinheiro para comprar comida, provocando certo aquecimento da economia local, do qual se beneficirão comerciantes, agricultores, etc. Contudo, a quantia original de R$ 950 mil, caso pudesse ser integralmente consumida, também produziria um aquecimento da economia, embora não nos mesmos setores e nem nos mesmos locais. É verdade que a Ciência Econômica não goza do mesmo status de exatidão das ciências empíricas, dividindo-se em uma série de escolas de pensamento, à maneira da psicanálise. Para a Escola Austríaca, por exemplo, aquela de Carl Menger, Ludwig von Mises, Friedrich Hayeck e outros, o multiplicador keynesiano não passa de fantasia, pois significaria a possibilidade de se criar algo a partir do nada. Mas, do ponto de vista dos programas de transferência, a situação não muda. Com ou sem multiplicador, tudo o que temos é a realocação de recursos, não o crescimento econômico. Isso não significa que os programas de transferência não tenham validade. Sabendo-se, por exemplo, que o Programa Bolsa Família beneficia famílias com renda mensal inferior a R$ 120, seria necessário um cinismo altamente refinado para afirmar que é melhor investir o dinheiro em outros programas e condenar tais famílias à inanição. Entretanto, a existência de programas sociais não autoriza ninguém a dizer que o país crescerá por causa deles. O bolo não cresce sozinho pela simples divisão das fatias. A verdadeira justiça social só virá se o bolo for repartido à medida em que cresce. Se programas de transferência não produzem crescimento econômico, então o que fazer? A resposta da Ciência Econômica é separar as fontes de crescimento em duas partes. De acordo com KRUGMAN [3], " De um lado estão os aumentos dos insumos: crescimento do nível de emprego, do nível de educação dos trabalhadores e do estoque de capital físico (máquinas, prédios, estradas e assim por diante). De outro lado estão aumentos na produção por unidade de insumo: tais aumentos podem resultar de uma melhor gestão ou política econômica, mas, a longo prazo, devem-se principalmente a aumentos no conhecimento." A última parte do argumento de Krugman é uma forma um pouco técnica de se dizer aquilo de que todos sabemos: sem educação, nada de crescimento econômico. É claro que os adeptos mais ferrenhos dos programas de transferência sempre podem argumentar que o dinheiro do subsídio servirá para evitar a evasão escolar, e que a evasão reduzida produzirá crescimento algum dia. Eu gostaria de acreditar nisso. Eu gostaria de acreditar que as crianças beneficiadas pelo Bolsa Família permanecerão na escola e terão acesso a conhecimentos suficientes para gerar empregos para si mesmas e aumentar a produtividade nacional, mesmo que no longo prazo (aquele período no qual, como lembrava Keynes, "estaremos todos mortos"). Contudo, conhecendo as escolas que tais crianças freqüentam, não há como ser muito otimista. De acordo com o relatório "Educação para Todos", da Unesco [4], o Brasil está na 72ª posição de um índice de desenvolvimento de 125 países que avalia o resultado do cumprimento das metas estabelecidas na Conferência Mundial de Educação, realizada no ano 2000. Estamos até mesmo atrás de países como Paraguai, Vietnã, Equador, Peru e Bolívia. E o tempo necessário para que o Bolsa Família, por si só, produza melhorias na qualidade educacional é provavelmente longo demais. O Brasil melhorou o acesso à educação nos últimos anos, mas a qualidade desta continua péssima. E, quando se trata de crescimento econômico, o qual depende do aumento nacional da produtividade, a qualidade da educação importa tanto quanto o acesso a ela. Se o governo Lula insistir apenas em programas de transferência de renda e na melhoria do acesso à escola, sem se preocupar com a melhoria da qualidade da educação, estaremos mortos no médio prazo, e não no longo, como previa Keynes. [1] JABOR, Arnaldo. CBN. 30 de out. de 2006. Disponível em < http://radioclick.globo.com/cbn/wma/wma.asp?audio=2006/colunas/jabor_061030.wma> [2] HEILBRONER, Robert; THUROW, Lester. Economics Explained. Touchstone. New York. 1994, p. 108. [3] KRUGMAN, Paul. Internacionalismo Pop. Ed. Campus. Rio de Janeiro. 1996, p. 165-178. [4] FOLHA DE SÃO PAULO. 27 de out. de 2006, p. C1.
O bloggeiro Ricardo Noblat comparou o primeiro debate entre Alckmin e Lula a uma luta de boxe e foi isso mesmo. Lula ficou a maior parte do tempo nas cordas, pois Alckmin já iniciou batendo, perguntando de onde veio o dinheiro para compra do dossiê que remeteu Lula para o segundo turno. Lula parece ter ficado tão assustado que se esqueceu de cumprimentar seus eleitores e o público presente. Coisa lamentável para um decano de campanhas presidenciais.
Mesmo quando batia, Lula parecia desajeitado, assassinando o português, cometendo erros pavorosos de concordância, lendo textos preparados por assessores despreparados, insistindo que o biodiesel é a solução para nossos problemas energéticos, repetindo que não sabia de nada, afirmando que cabe a ele o mérito de ter afastado os corruptos (quando se sabe que todos os escândalos foram levantados por Roberto Jefferson e pela imprensa).
Alckmin, por outro lado, perdeu umas boas oportunidades de jabs. Deixou de atacar quando o outro candidato lembrou que "essa quadrilha começou no governo anterior", esqueceu de dizer que o crescimento econômico do Brasil não foi o maior dos últimos 20 anos, como aventado por Lula, esqueceu de lembrar que a política econômica do governo do PT, a qual, segundo Lula, "salvou o país", é idêntica à do governo FHC. Talvez Alckmin queira descolar sua imagem da de FHC, mas ele poderia ao menos ter lembrado que o dólar só foi a R$4,00 em 2002 por causa do medo da eleição de Lula, e que muita coisa que aconteceu entre 2003 e 2006, aconteceu apesar do governo, não por causa dele.
No final, Lula se despediu, agradecendo aos "telespectadores da Rádio Bandeirantes". A Coréia do Norte parece ter gostado do debate, pois comemorou soltando bombas.
No final de 2002, uma equipe formada por antropólogos forenses britânicos e israelenses usou programas de computador para reproduzir aquela que teria sido a face de Jesus de Nazaré. O resultado, que pode ser considerado como o retrato de um camponês qualquer do século I, é perturbadoramente semelhante a uma figura carimbada da política brasileira. O Jesus dos antropólogos tem uma certa expressão de espanto, como quem se pergunta "como é que eu cheguei aqui?" E, apesar das críticas apresentadas ao trabalho, as quais dizem respeito à impossibilidade de se saber a aparência de Jesus, dado que não se tem acesso aos seus restos mortais, o Jesus dos antropólogos é pelo menos mais verossímel do que as imagens que nos têm sido apresentadas desde a Renascença, que mostram um Jesus loiro e de olhos azuis. Em dezembro de 2002, quando o resultado do trabalho foi apresentado, Lula já estava eleito. Logo, podemos apenas imaginar se a cúpula petista teria usado a semelhança física entre ele e o Jesus dos antropólogos para facilitar a eleição, tese que a massa sendenta de um salvador da pátria compraria sem o menor pudor. Hoje, às vésperas da eleição, as comparações entre Lula com o rei dos judeus são ainda mais despudoradas, pois não se baseiam na aparência física. Talvez a mania tenha começado com o candidato do PRB ao governo do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que é senador e "bispo" de uma igreja evangélica qualquer. Em agosto passado, ele disse: " Eu acho que o presidente foi traído como ele sempre disse que foi. Ele não sabia do mensalão. Você culparia Cristo pela traição de Judas? Acho que não." Em comício realizado na semana passada, o próprio Lula levantou a tese da traição pelos Judas do PT, declarando-se inocente. Pouco antes, em um comício em Criciúma, Lula afirmou: " Achei que tinha perdido todo meu sangue. Aí pedi uma gota de sangue para o povo brasileiro. Por isso estou mais jovem, porque estou com o sangue do povo." Alegorias sangüíneas, tão caras ao cristianismo, não são novidade na política brasileira. Em sua carta de despedida, Getúlio Vargas escreveu: " Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue (...) Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência". Um gesto típico de suicidas, que cometem o ato com a intenção de fazê-lo pesar na consciência dos outros. Mas pelo menos ele se matou. O que fico pensando é se Lula tem noção da amplitude de suas comparações com Jesus. Primeiro, porque, a julgar pela mitologia cristã, Jesus tinha plena consciência do que Judas estava tramando. Segundo, porque Jesus, mesmo inocente, foi crucificado. Se Lula for crucificado, só espero que não ressuscite ao terceiro dia...
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